Em entrevista exclusiva à revista Mercado Automotivo, Alexandre Xavier, superintendente do IQA – Instituto da Qualidade Automotiva –, comemora o aniversário da entidade. O executivo também aponta os próximos desafios e objetivos do Instituto. Confira a seguir:
Mercado Automotivo – O IQA completa 30 anos em 2025. Em sua opinião, quais são as principais conquistas do Instituto nesse período? E quais desafios permanecem para os próximos anos de atuação?
Alexandre Xavier – O IQA foi criado para elevar os padrões de qualidade no setor automotivo brasileiro – indústria, comércio e serviços –, como consequência direta da abertura de mercado nos anos 90. Inicialmente, apoiou a regulamentação e se estruturou como organismo de certificação para componentes automotivos, atividade que permanece fundamental. Ao longo de suas três décadas, ampliou a atuação em avaliação da conformidade, oferta de treinamentos e conteúdo técnico. Para os próximos anos, o desafio é manter nossa relevância diante das transformações do setor, oferecendo bases para inovações tecnológicas, promovendo sustentabilidade, expandindo a atuação em regiões menos atendidas e ampliando as possibilidades de qualificação dos profissionais.
MA – Nos últimos semestres temos acompanhado um “esvaziamento” no discurso ESG (forma como empresas comunicam suas práticas e seus compromissos relacionados aos aspectos ambientais, sociais e de governança – Environmental, Social and Governance) de alguns países e também de algumas empresas. O IQA se preocupa com esse cenário? Como fortalecer o discurso ESG novamente?
AX – Sim, estamos acompanhando e o IQA entende que um discurso ESG superficial pode comprometer resultados reais. Mas é uma tendência que não retrocederá, considerando as mudanças climáticas e os próprios anseios da sociedade. Nosso compromisso é transformar boas intenções em ações efetivas, por meio de diagnósticos, certificações, treinamentos e soluções que mensuram práticas sustentáveis, garantindo a integração entre comunicação e resultados. A trilha IQA DS (Desenvolvimento Sustentável) é e continuará relevante, ajudando organizações a evoluírem nesse sentido, independentemente do seu porte ou de sua maturidade em ESG.
MA – Gostaria que falasse sobre o Projeto ODS. Qual é sua importância e seus objetivos?
AX – O Projeto ODS IQA vincula o setor automotivo aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, mapeando e incentivando práticas que unem responsabilidade socioambiental a inovação. Seus objetivos centrais são capacitar organizações, desenvolver diretrizes práticas e mapear a realidade do setor, tornando as ações sustentáveis um verdadeiro diferencial competitivo.
MA – Qual é a importância, na sua opinião, da realização da COP30 no Brasil, no próximo mês de novembro? De que forma o setor automotivo pode se beneficiar especificamente da realização desse evento no país?
AX – A COP30 é uma oportunidade fundamental para colocar o Brasil no centro dos debates climáticos globais. Para o setor automotivo, o evento pode impulsionar a transição para tecnologias limpas, estimular investimentos em infraestrutura sustentável e fomentar parcerias que reduzam a pegada de carbono, abrindo novas perspectivas para inovação. O IQA apoiará sempre toda e qualquer iniciativa que promova caminhos para necessidades como essas!
MA – Como o IQA pretende fomentar a qualificação dos profissionais do setor automotivo brasileiro nos próximos anos?
AX – Pretendemos expandir fortemente as opções em qualificação, uma área de atuação do Instituto que já treinou mais de 45.000 pessoas desde 2004. Entendemos que o conhecimento atualmente não deve ser transmitido apenas por formas convencionais, mas aproveitando recursos atuais de tecnologia e adequando-se a necessidades específicas. Essa abordagem garantirá que os profissionais estejam atualizados e prontos para enfrentar os desafios de um mercado em constante evolução. Nos próximos meses teremos novidades nesse sentido, aguardem!
MA – Como o Brasil está em termos de qualificação de profissionais na comparação com outros mercados? Qual é nosso principal gargalo?
AX – Apesar dos avanços, o Brasil ainda enfrenta desafios na formação técnica especializada e na integração entre indústria e educação. O IQA entende ter um papel essencial em complementar o conhecimento específico relacionado à qualidade para o setor automotivo, e garante isso não apenas multiplicando o conteúdo já disponível, mas buscando as melhores práticas globais para disseminação local. E nos próximos anos teremos iniciativas importantes para aprimorar o diálogo entre o setor produtivo e a academia.
MA – Com a profusão de marcas e modelos de veículos nas últimas décadas, muitos players do setor de reposição acabaram se especializando em determinado segmento, abandonando aquele perfil “generalista”. É possível trabalhar com um amplo e diversificado portfólio sem deixar que a qualidade do serviço seja afetada? Pensando em um país de proporções continentais como o Brasil.
AX – Sim, com a padronização dos processos e o uso de tecnologias de monitoramento, é viável operar com um portfólio abrangente sem comprometer a qualidade. Estratégias robustas de gestão, unidas a qualificações e certificações confiáveis (para empresas e profissionais), asseguram que a excelência seja mantida mesmo em um mercado tão diverso.
MA – Olhando em retrospectiva para as últimas três décadas, quais foram as principais mudanças vivenciadas por quem atua no setor de reposição no Brasil?
AX – O setor passou de abordagens artesanais para operações modernas com alto rigor técnico. A evolução tecnológica dos veículos, a entrada de novas marcas, a mudança nos modelos de negócio, o crescimento do comércio eletrônico: todos são fatores que influenciam a forma de atuar em toda a cadeia de reposição. Não serão poucos os desafios para os próximos anos, e o IQA vem trabalhando intensamente com as entidades relacionadas ao aftermarket para apoiar as transformações necessárias. Qualidade cada vez mais será ferramenta para competitividade, o que inclui aprimoramento na regulamentação e vigilância de mercado.
MA – Pensando agora no nível de consciência do brasileiro para priorizar produtos originais e certificados. Essa consciência vem aumentando nos últimos anos? Quais são os desafios para ampliá-la?
AX – A conscientização do consumidor sobre a importância de produtos certificados tem crescido, acompanhada de campanhas educativas e maior acesso a informação. Entretanto, o desafio continua em combater desvios de qualquer nível, exigindo transparência, educação e fiscalização contínua. É nítido pra nós que o nível da discussão sobre qualidade na sociedade evoluiu de forma significativa, mas ainda está aquém do que desejamos, e entendemos que o País precisa. Porém, temos uma característica que será preservada e consideramos essencial para o IQA em toda sua existência, no seu papel de transformar a sociedade: a resiliência.
MA – Gostaria que falasse sobre o lançamento do livro IQA: 30 anos de história da qualidade automotiva no Brasil. Qual seu conteúdo e o que ele representa pro Instituto?
AX – O livro documenta nossa trajetória, reunindo marcos históricos, depoimentos e desafios superados. Ele representa um legado de excelência e inovação, servindo como inspiração e guia para as futuras estratégias do Instituto e para a consolidação da qualidade automotiva no Brasil. O que muito nos orgulha ao lê-lo é que o conteúdo expressa um aspecto muito importante no IQA: tudo é uma construção colaborativa, nossas realizações são resultado de uma convergência de esforços que, se ampliados para outras esferas de nossa sociedade, não temos dúvidas, elevariam o Brasil para o patamar que todos sonhamos.
MA – Por fim, gostaria que deixasse uma mensagem a todos os associados do IQA em relação aos próximos dois anos de atuação do Instituto.
AX – Falarei na verdade de forma mais ampla do que isso, pois o papel do Instituto é atender todo o setor automotivo no Brasil, o que hoje em dia é muito mais amplo em uma lógica de mobilidade. Deixo uma mensagem de otimismo e união. Nos próximos dois anos, intensificaremos os investimentos em qualificação, soluções que apoiem inovações tecnológicas e práticas sustentáveis, transformando desafios para que o Brasil aproveite as oportunidades existentes (entendemos que há muitas!) ampliando cada vez mais sua relevância local e global, tendo a qualidade automotiva como uma ferramenta essencial para a competitividade.
Escrito por: Redação