Economia do país anima em algumas frentes, mas nova tarifa dos EUA preocupa
Já ultrapassada a metade do ano, comércio e indústria olham para a economia brasileira ora com otimismo, ora com desconfiança. Se por um lado alguns indicadores apresentam melhora, por outro, as novas tarifas para produtos brasileiros anunciadas pelos Estados Unidos em julho geram mais preocupação.
No setor automotivo, certamente um dos principais resultados está relacionado ao financiamento de veículos, que cresceu mais de 10% no primeiro semestre. Os dados são da Trillia, empresa de análise de dados da B3.
No total, o financiamento de veículos nos primeiros seis meses de 2026 cresceu de R$ 3,41 milhões para R$ 3,78 milhões (+10,9%), o que representa o maior volume para o período desde 2008, quando houve o registro de R$ 4,23 milhões em financiamentos.
Neste primeiro semestre, os veículos usados responderam por 2,38 milhões de unidades financiadas, enquanto os novos somaram 1,39 milhão. Em 2025, os volumes foram de 2,18 milhões e 1,22 milhão, respectivamente. Todas as regiões brasileiras registraram expansão no financiamento entre o primeiro semestre de 2026 e o mesmo intervalo de 2025. O avanço mais expressivo ocorreu na Região Centro-
-Oeste, com expansão de 13,1%. Na sequência, aparecem o Nordeste (12,6%), o Sul (11,2%), o Sudeste (10,6%) e o Norte (4,4%).
Entre as diferentes categorias de automotores, os comerciais leves acumulam a maior parte dos financiamentos. Em junho de 2026, o segmento somou 434 mil unidades financiadas, ante 388 mil em junho de 2025, alta de 11,9%.
Quando analisado o acumulado do semestre, o prazo médio dos contratos para automóveis e comerciais leves registrou 47,2 meses, frente aos 46,3 meses verificados no ano anterior. A tendência de alta se estende por todas as categorias de tempo de uso.
Os principais avanços ocorreram no grupo de veículos com 4 a 8 anos de fabricação, cujo prazo médio subiu de 50 para 51,3 meses, e nos modelos até 3 anos, que passaram de 49,4 para 51,6 meses.
Motos
O mercado das motos também segue em expansão, principalmente entre o público que busca trabalhar com o ciclomotor. Ao todo, 155 mil motos foram financiadas em junho de 2026, representando um aumento de 5,6% frente as 147 mil registradas em junho de 2025. Por outro lado, o volume teve uma retração de 3,9% quando confrontado com o desempenho de maio de 2026.
As motocicletas usadas registraram 116 mil unidades financiadas em junho de 2026, o que representa uma alta de 5,5% na comparação anual. As motos novas totalizaram 39 mil unidades no mesmo mês, apresentando uma queda de 2,4% quando comparadas a junho de 2025.
Pesados
O setor de veículos pesados também apresentou desempenho positivo. No mês de junho de 2026, o total de unidades financiadas chegou a 24 mil, o que representa uma expansão de 7,1% frente as 22 mil registradas em junho de 2025. Quando confrontado com o volume de maio de 2026, constatou-se uma evolução de 5,8%.
Na segmentação por tempo de uso, os veículos pesados novos lideraram o crescimento com 13 mil financiamentos em junho de 2026, salto de 33,2% em relação ao mesmo mês do ano anterior.
Os modelos usados contabilizaram 11 mil unidades, com alta de 19,9% no mesmo período comparativo. O desempenho indica continuidade dos investimentos em transporte de cargas e passageiros.
Novas tarifas impostas pelos EUA
Ao longo do mês de julho, no entanto, a economia brasileira sofreu um novo abalo com a divulgação das novas tarifas aplicadas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros exportados. O novo tarifaço vai atingir US$ 6,6 bilhões em itens exportados ao mercado norte-americano, segundo informou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Ainda de acordo com a pasta, a sobretaxa acumulada de 37,5% alcança 16,5% das exportações brasileiras para os EUA.
Entre os itens atingidos estão máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, gorduras e óleos, calçados, móveis e confecções.
Como resposta à nova taxação, o governo brasileiro apresentou um pedido de consultas aos EUA no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), contestando duas medidas tarifárias adotadas pelo país norte-americano com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Segundo nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Brasil considera que as tarifas são injustificadas e incompatíveis com as obrigações assumidas pelos Estados Unidos no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio de 1994 (GATT 1994) e das regras que disciplinam o mecanismo de solução de controvérsias da OMC.
Uma das medidas questionadas decorre de uma investigação específica sobre o Brasil e impôs tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. No processo, os EUA examinaram temas como comércio digital e serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, aplicação da legislação anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e combate ao desmatamento ilegal.
A segunda medida foi resultado de uma investigação conduzida com 60 economias e estabeleceu tarifa adicional de 12,5% para produtos brasileiros. Nesse caso, o foco da investigação foi a existência e a aplicação de restrições à importação de bens produzidos, total ou parcialmente, com trabalho forçado.
O pedido de consultas representa a primeira etapa formal do sistema de solução de controvérsias da OMC. Nessa fase, os países buscam negociar uma solução para o conflito antes da eventual instalação de um painel para analisar o caso.
De acordo com o Itamaraty, a iniciativa busca contestar a compatibilidade das medidas tarifárias norte-americanas com as normas multilaterais de comércio.
Quase 4 mil produtos impactados
Segundo levantamento divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), essa nova tarifa adicional de 12,5% imposta pelos EUA fará com que 3.985 produtos brasileiros passem a enfrentar uma tributação total de 37,5% para entrar no mercado estadunidense.
Com isso, a nova medida alcançará o equivalente a 29,4% de todas as vendas do Brasil aos EUA. O levantamento da CNI detalhou como a nova tarifa será aplicada:
- 060 produtos brasileiros serão atingidos pela nova sobretaxa;
- 985 produtos já estavam sujeitos à tarifa adicional de 25% e agora passarão a pagar 37,5% no total;
- Outros 75 produtos, que somam US$ 1,6 bilhão em exportações, serão tributados apenas pela nova alíquota de 12,5%, sem incidência da tarifa anterior.
No total, a CNI calcula que 48,7% de todas as exportações brasileiras destinadas aos EUA passarão a estar sujeitas a algum tipo de tarifa adicional imposta pelo governo estadunidense.
Na avaliação da CNI, as justificativas apresentadas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) para esta nova taxação não refletem a realidade brasileira. A entidade afirma que o país possui uma das legislações mais modernas para prevenir, combater e erradicar o trabalho forçado ao longo das cadeias produtivas.
Ainda segundo a confederação, o arcabouço jurídico brasileiro prevê mecanismos de fiscalização, responsabilização e proteção aos trabalhadores reconhecidos internacionalmente.
Em nota, o presidente da CNI, Ricardo Alban, defendeu a intensificação das negociações entre os governos brasileiro e estadunidense, para tentar reduzir os impactos sobre a indústria.
“É essencial que o diálogo entre Brasil e Estados Unidos seja mantido e aprofundado. Ao mesmo tempo, precisamos agir com rapidez para amenizar o impacto sobre as empresas prejudicadas”, destacou. Segundo Alban, a entidade já mantém conversas com o governo federal e com os setores mais afetados para construir medidas de curto prazo.
Expectativa de inflação em 2026
Em outra frente, o mercado financeiro reduziu novamente as expectativas de inflação para 2026 no Brasil. De acordo com o Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do país deve fechar o ano em 5,12%. Quatro semanas antes, as projeções para este índice estavam em 5,33%.
Para os anos subsequentes (2027 e 2028), as expectativas inflacionárias do mercado financeiro são, respectivamente, de 4,22% e 3,80%. Nos demais indicadores (PIB, Câmbio e Selic), as projeções do mercado têm se mantido estáveis.
No caso do Produto Interno Bruto (PIB), as projeções do mercado financeiro permaneceram em 1,99% em 2026. Para 2027 e 2028, o mercado projeta, para a economia, crescimentos de 1,60% e 2%, respectivamente.
Já em relação às projeções para o câmbio ao final de 2026, há estabilidade superior a um mês para a cotação de R$ 5,20 para o dólar. Para os anos subsequentes, são esperadas cotações de R$ 5,28 em 2027; e de R$ 5,30 em 2028.
Por sua vez, a projeção da taxa básica de juros (Selic) para 2026 se manteve em 14%. A taxa atual, estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do BC em 17 de junho, é 14,25%. Com isso, há expectativa de, pelo menos, uma redução na atual taxa até o final de 2026.
As previsões da Selic para 2027 e 2028 se mantiveram estáveis, em 12% e 10,5%, respectivamente. De junho de 2025 até março de 2026, a Selic estava em 15% ao ano, o maior nível desde julho de 2006, quando foi fixada em 15,25% ao ano. De setembro de 2024 a junho de 2025, a taxa foi elevada sete vezes.
*Com informações da Agência Brasil
Escrito por: Redação