Com famílias no aperto financeiro, governo lança o Novo Desenrola Brasil, com expectativa de reduzir dívidas
O governo federal lançou em março o Novo Desenrola Brasil, programa que busca ajudar famílias, estudantes e pequenos empreendedores a renegociar dívidas, limpar o nome e recuperar o acesso ao crédito. A nova fase da iniciativa terá duração de 90 dias e prevê descontos de até 90%, juros reduzidos e a possibilidade de uso do FGTS para abatimento de débitos.
A estratégia visa promover a reorganização financeira de milhões de brasileiros e ampliar o acesso ao crédito em condições mais favoráveis. Na apresentação do programa, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicou que a ideia do governo é criar mecanismos estruturantes para melhores condições de pagamentos a novas dívidas que venham a ser contraídas. “A gente precisa recuperar a qualidade do crédito que essa pessoa toma”, disse. “O mais importante para as famílias é que a pessoa que está endividada e precisa dessa ajuda contará com um fundo garantidor do Poder Público”, acrescentou.
Características do Novo Desenrola
A nova fase do programa prevê uma mobilização nacional com duração de 90 dias e foco na renegociação de dívidas de famílias, estudantes, agricultores familiares, aposentados, pensionistas e micro e pequenas empresas. A previsão do governo é oferecer grandes descontos, juros menores e uso de garantias públicas, com o objetivo de reduzir a inadimplência e estimular o uso consciente do crédito.
Uma das principais frentes é o Desenrola Famílias, que é voltado à renegociação de dívidas de pessoas físicas. Podem participar pessoas com renda de até 5 salários mínimos (R$ 8.105). As dívidas renegociadas devem ter sido contratadas até 31 de janeiro de 2026, e o atraso deve ter entre 90 dias e dois anos, nas modalidades cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado.
Entre as condições de renegociação, são esperados descontos entre 30% e 90%, com juros de até 1,99% ao mês e prazo de pagamento de até 48 meses. As parcelas devem ter um valor mínimo de R$ 50 e há um limite de até R$ 15 mil por pessoa, por instituição financeira.
Entre as novidades, está a possibilidade de uso de 20% do saldo do FGTS ou até R$ 1 mil, o que for maior, após a renegociação. Como contrapartida, no entanto, os participantes terão um bloqueio do CPF por 12 meses para sites de apostas online. Além disso, os Bancos deverão investir 1% das garantias do programa em educação financeira e seguirá a proibição de envio de recursos para apostas por meio de crédito.
Há também a modalidade Desenrola Fies, que contempla a renegociação de dívidas estudantis, com condições conforme o atraso e o perfil do estudante. Nesse caso, dívidas entre 90 e 360 dias terão desconto de 100% dos juros e multas, enquanto o pagamento à vista incluirá desconto adicional de 12% do principal. Essa modalidade permite parcelamento em até 150 vezes.
Para dívidas acima de 360 dias, o desconto previsto é de até 77% para estudantes fora do CadÚnico, e até 99% para estudantes do CadÚnico. A expectativa da modalidade é beneficiar mais de 1 milhão de estudantes.
Na modalidade Desenrola Empresas, o benefício é voltado a micro e pequenas empresas, com foco na substituição de dívidas caras por crédito com melhores condições. A expectativa é a de alcançar mais de 2 milhões de empresas, com melhoria das linhas do ProCred e do Pronampe.
As microempresas (até R$ 360 mil/ano) terão a carência ampliada de 12 para 24 meses. O prazo total passou de 72 para 96 meses, e a tolerância à inadimplência passou de 14 para 90 dias.
O crédito promovido poderá chegar a até 50% do faturamento, chegando a 60% para empresas lideradas por mulheres. Já as empresas com receitas de até R$ 4,8 milhões/ano terão carência de até 24 meses, prazo de até 96 meses, e limite de crédito subindo de R$ 250 mil para R$ 500 mil.
Por fim, a modalidade Desenrola Rural foi relançada para atender agricultores familiares, visando a regularização de dívidas antigas. Através dessa modalidade, são previstas a ampliação do prazo para renegociação até 20 de dezembro de 2026 e a facilitação do acesso ao crédito rural e à retomada da capacidade produtiva. A expectativa é que o programa atenda cerca de 1,3 milhão de agricultores familiares.
Quase R$ 1 bilhão em dívidas renegociadas
Menos de 10 dias após o lançamento do programa, o governo informou que o Desenrola 2.0 já estava próximo de atingir R$ 1 bilhão em débitos renegociados. De acordo com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, cerca de 200 mil pedidos de renegociação foram enviados aos bancos participantes do programa. Desse total, aproximadamente 100 mil operações já estavam praticamente concluídas.
O lançamento do programa ocorre em meio ao elevado endividamento das famílias brasileiras. Dados do Banco Central mostram que boa parte da renda dos consumidores segue comprometida com dívidas, especialmente em modalidades com juros altos, como cartão de crédito e cheque especial.Segundo o Ministério da Fazenda, a expectativa é renegociar até R$ 42 bilhões em dívidas ao longo do programa.
Juros altos
Economistas consultados pela Agência Brasil indicam que a elevada taxa básica de juros – a taxa Selic – praticada no Brasil, somada aos altos spreads bancários aplicados pelas instituições financeiras, têm contribuído para o aumento do endividamento das famílias, o que levou o governo a lançar o Novo Desenrola.
No Brasil, o spread bancário (diferença entre os juros que os bancos pagam e os que emprestam aos consumidores) foi de 34,6 pontos percentuais (p.p.) em março contra 29,7 p.p. registrados no mesmo mês de 2025. Para se ter uma ideia, o Banco Mundial calcula um spread bancário médio no mundo em torno dos 6 p.p.
A professora de Economia da Universidade de Brasília (UnB), Maria de Lourdes Mollo, explica que, quanto maior a taxa Selic definida pelo Banco Central (BC), maior são os juros praticados pelos bancos sobre as famílias.
“Os juros dos empréstimos estão muito altos. Isso tem uma relação direta, sem dúvida nenhuma, com o endividamento das pessoas, o que tem dificultado muito a economia a funcionar”, disse Maria de Lourdes. A professora da UnB citou ainda, como agravante para as famílias, a precarização dos empregos no Brasil.
“Grande parte das pessoas está se endividando para completar o orçamento, para pagar despesas com saúde e do cotidiano. Esse Novo Desenrola pode liberar um pouco o orçamento das pessoas e, eventualmente, até dar um estímulo à economia”, completou Maria de Lourdes.
O Brasil tem a segunda maior taxa básica de juros reais do mundo, descontada a inflação, com 9,3%. Ficamos atrás apenas da Rússia, país em guerra, com 9,6%. Em terceiro colocado, vem o México, com uma taxa de 5,0%. Os dados são do site especializado Moneyou.
Endividamento das famílias
Pelo quarto mês consecutivo, o total de famílias com dívidas cresceu no Brasil e alcançou 80% em abril, “nova máxima histórica”, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O total de famílias inadimplentes, com contas em atraso, ficou em 29,7%, em relativa estabilidade.
“As famílias que ganham até três salários mínimos registram o maior nível de endividamento (83,6%) e o maior índice de contas em atraso (38,2%)”, destaca a CNC.
A professora de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Juliane Furno, avalia que o endividamento das famílias brasileiras pode ser explicado pelas “altíssimas” taxas do spread bancário.
“O Brasil tem um dos maiores spreads bancários do mundo, em algumas comparações recentes, aparece no topo do ranking. O spread é elevado, segundo os bancos, porque a inadimplência é muito alta. Ou seja, esse valor justificaria o risco. Só que posso também dizer que a inadimplência é alta porque os juros (spread) são altos”, diz Juliane.
O ranking da World Open Data, com dados de 2024, coloca o Brasil como o país com as maiores taxas de spread do planeta, seguido por República Tcheca, Sudão do Sul, Serra Leoa, Moçambique, Angola, Ucrânia e Timor Leste.
Dados do BC de março mostram que os bancos cobram das pessoas físicas, as famílias, uma taxa de juros média de 61% ao ano. Para as empresas, a taxa média é de 24%.
A professora de Economia Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Mello de Malta, pondera que, como a taxa básica do Brasil é a segunda mais alta do mundo, ela faz os bancos elevarem as taxas para a população.
“Quando a taxa Selic está alta, todas as outras estão sempre mais altas. Quando o trabalhador vai pagar o empréstimo dele, e passa do limite e não consegue pagar o cartão de crédito, os juros serão mais altos que a Selic”, afirmou Maria à Agência Brasil.
Malta acrescenta que essa situação gera uma “bola de neve” com as famílias trabalhadoras buscando “outra fonte para poder pagar a primeira dívida e vai se endividando progressivamente”.
Os juros mais altos praticados no Brasil são do rotativo do cartão de crédito, que pode chegar a mais de 400% ao ano.
Atividade econômica
Em meio ao lançamento do programa, o BC divulgou que a atividade econômica brasileira caiu em março, primeiro mês da guerra no Irã. O IBC-BR, índice que acompanha a economia mês a mês, apontou recuo de 0,7% em relação a fevereiro.
A queda foi registrada em todos os setores avaliados: arrecadação de impostos, agropecuária, indústria e serviços. Este último apresentou a maior redução, de 0,8%. O professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), William Baghdassarian, explica que a economia funciona com base em expectativas. Com o cenário de incerteza provocado pela guerra, as empresas tendem a investir menos, o que leva a um menor movimento econômico.
“O mundo inteiro acaba sendo afetado por isso. Essa forma de ser afetada tem efeitos em cadeia. Então, se você acredita que o combustível vai subir, você também acredita que a China vai ser afetada com isso. Se a China é afetada, a produção da China cai, ela importa menos. Logo, se ela importa menos, o Brasil exporta menos. Então, você tem todo um efeito em cadeia, não por causa da guerra em si, mas pela expectativa. O medo de algo ruim acontecer é tão ruim quanto o algo ruim acontecer de fato.”
William Baghdassarian acredita na resolução da guerra, mas alerta que as eleições podem ser outro fator de incerteza na economia.
“Podemos ter, por exemplo, a resolução da guerra, mas com o aumento da incerteza política, o efeito prático será zero. Em política pública, para você conseguir isolar um efeito é muito difícil”, completa.
Apesar dos números negativos em março, nos últimos 12 meses, o IBC-BR avançou 1,8%, segundo o Banco Central.
*Com informações da Agência Brasil
Escrito por: Redação