Seminário da Reposição Automotiva mostra que sustentabilidade, transição energética e profissionalização da gestão já impactam todos os elos da cadeia
O Seminário da Reposição Automotiva chegou à sua 31ª edição, realizada no último dia 7 de outubro na Fiesp, em São Paulo (SP). O evento reforçou um papel que vai muito além de reunir as principais lideranças do aftermarket: o de funcionar como um termômetro dos grandes movimentos que estão transformando o setor.
Se em 2024 o debate girou em torno de inteligência artificial, pulverização da frota e direito à reparação, a edição de 2025 colocou no centro do palco temas como ESG, descarbonização, transição energética, governança nas empresas familiares e o avanço da presença feminina em todos os elos da cadeia.
Organizado mais uma vez pelo Grupo Photon, o Seminário contou com lideranças de entidades como Andap, Asdap, Conarem, IQA, Sicap, Sincopeças Brasil, Sindipeças e Sindirepa Brasil, além de executivos de fabricantes, distribuidores, varejistas e de oficinas. Ao longo de um dia de palestras e painéis, ficou claro que a reposição vive um momento em que a competitividade passa, cada vez mais, por responsabilidade ambiental, social e pela capacidade de estruturar empresas longevas, bem geridas e mais diversas.
Cadeia automotiva ganha fôlego e novos desafios
A primeira palestra do evento coube novamente a Claudio Sahad, presidente do Sindipeças, que traçou um panorama da cadeia automotiva no Brasil. Atualmente, o país conta com 26 montadoras (Anfavea), 8,3 mil concessionárias (Fenabrave), 44 distribuidores (Andap), 72 mil lojas de autopeças (Sincopeças) e 102 mil oficinas independentes (Sindirepa). É esse ecossistema que sustenta, de um lado, a recuperação gradual da produção de veículos e, de outro, o crescimento firme da reposição.
Entre janeiro e setembro de 2025, a produção de autoveículos somou quase 2 milhões de unidades, aumento de 6% em relação ao mesmo período de 2024, enquanto os emplacamentos avançaram 2,8%. As exportações deram um salto ainda maior, com alta superior a 50%, impulsionadas, em boa medida, pela retomada da demanda na Argentina.
Ao mesmo tempo, a indústria de autopeças deve encerrar o ano com crescimento de 5% no faturamento, chegando a R$ 272 bilhões, com a reposição respondendo por uma fatia relevante e em expansão.
Esse avanço, porém, convive com movimentos que exigem atenção estratégica. Sahad chamou a atenção para o crescimento acelerado dos veículos importados leves e comerciais leves, em especial os chineses, que já representam cerca de 8% dos licenciamentos totais.
A entrada de novos players e tecnologias altera a dinâmica competitiva e pressiona toda a cadeia por eficiência. SUVs seguem liderando a preferência do consumidor, as vendas diretas de comerciais leves mantêm papel central e, entre os híbridos, cresce o espaço dos modelos compactos. A infraestrutura de recarga em todo o país, por sua vez, ainda é um gargalo para a evolução dos elétricos.
Do ponto de vista da reposição, outros dois dados merecem destaque: o aumento contínuo da frota circulante no país e o seu envelhecimento, hoje na casa de 10 anos e 11 meses, em média. Uma frota mais antiga demanda mais manutenção, amplia as oportunidades para o aftermarket e, ao mesmo tempo, reforça a necessidade de políticas públicas como Inspeção Técnica Veicular (ITV) e programas estruturados de renovação de frota.
O grande potencial de geração de biomassa e biocombustíveis, assim como a capacidade de geração de energias renováveis também foram citados como relevantes para a indústria automotiva e o país.
ESG sai do discurso e chega às fábricas e oficinas
Se há alguns anos a temática ESG aparecia nas apresentações mais como tendência de longo prazo, o Painel da Indústria mostrou que, em 2025, a sustentabilidade já entrou definitivamente na rotina das empresas e começa a ganhar escala em projetos concretos, com impacto direto sobre a reposição.
Mediado pelo jornalista Adalberto Piotto, o painel reuniu Sérgio Montagnoli, diretor de Marketing Global e Vendas IAM da Frasle Mobility; Raul Cavalero, diretor de Vendas e Marketing da MANN+HUMMEL; Guilherme Soares, head de Vendas Aftermarket da BorgWarner América Latina, e Leonardo Araujo, presidente da NTN Rolamentos do Brasil.
Em comum, todos apresentaram iniciativas que mostram como políticas ambientais, sociais e de governança deixaram de ser apenas exigência de investidores para se tornar parte da competitividade diária.
Montagnoli destacou o projeto Caldeira Verde, em Caxias do Sul (RS), que utiliza madeira que vem do resíduo para geração de energia, com economia equivalente a 260 mil botijões de gás de cozinha por ano. O executivo também citou o programa Recycle Max, que realiza logística reversa de discos de freio da Fremax. “Cerca de 460 mil discos de freio que vendemos têm origem de material reciclado, o que acredito que seja a verdadeira contribuição da indústria”, afirmou.
Na mesma linha, Cavalero apresentou a participação da MANN+HUMMEL no programa Descarte Consciente Abrafiltros, voltado à destinação correta de filtros de óleo lubrificante automotivo usados, que são classificados como resíduo perigoso por conta da potencial contaminação. Implantado desde 2012 e já expandido para vários estados, o programa vem superando a marca de dezenas de milhões de filtros reciclados, em um esforço que demanda investimento relevante da indústria, mas que reposiciona fabricantes junto à sociedade e aos clientes.
Soares reforçou a visão de que, hoje, a sustentabilidade está diretamente conectada ao “bolso” de investidores e consumidores. Empresas que não incorporam práticas ESG têm mais dificuldade para acessar capital, perdem credibilidade e sofrem rejeição de um consumidor cada vez mais atento ao impacto ambiental e social das marcas.
Araujo, por sua vez, detalhou o plano da NTN de chegar à neutralidade de carbono em 2050, com metas ambiciosas de redução de emissões de escopos 1 e 2 em até 90% em algumas regiões até 2035. Além de fazer o dever de casa dentro da esfera de sua influência, a NTN trabalha junto aos fornecedores com relação a ações voltadas ao eixo ESG.
Ao final, o recado foi claro: ESG não é mais uma agenda paralela ao negócio. É parte da estratégia, influencia a relação com distribuidores, varejistas, oficinas, poder público e, em última instância, define a capacidade do aftermarket brasileiro de competir em um mundo em transição energética acelerada.
Governança para garantir longevidade às empresas familiares
Se a sustentabilidade é um eixo cada vez mais importante da competitividade, outro tema atravessou a programação do Seminário: a governança nas empresas familiares de distribuição, varejo e reparação. Em um setor construído, historicamente, por empreendedores que começaram “atrás do balcão” ou dentro da oficina, estruturar sucessões, profissionalizar a gestão e preservar valores virou questão de sobrevivência.
No Painel da Distribuição, o tema central foi “Governança em Empresa Familiar”. Ana Paula Cassorla, diretora de Marketing e Compras da Pacaembu Autopeças, trouxe dados relevantes: apenas cerca de 30% das empresas familiares chegam à segunda geração; de 10% a 15% alcançam a terceira e, no máximo, 5% chegam à quarta ou quinta geração. Para reverter esse quadro, a executiva defendeu regras claras, transparência e profissionalização.
Eduardo Kalabaide, diretor Administrativo da Scherer S/A Comércio de Autopeças, relatou o desafio de alinhar gerações distintas dentro do negócio, de familiares com 90, 70, 60 e 40 anos. Na visão dele, a sucessão bem-sucedida exige coragem, resiliência e disposição para enfrentar conflitos inevitáveis, sempre com o apoio de estruturas formais de governança.
Já Felipe Martins, sócio-diretor do Grupo PMZ, compartilhou a experiência da transição realizada há três anos, reforçando que não se trata apenas de repassar o comando, mas também um sonho. Nesse cenário, o fundador precisa estar preparado para abrir espaço e, ao mesmo tempo, encontrar um novo papel. O sucessor, por sua vez, precisa estar pronto para continuar a história sem romper com os valores que construíram a marca.
Completando o painel, Paula Soares, diretora de Tecnologia e Supply Chain na Goop (distribuidora da marca Takao), reforçou a importância do diálogo entre gerações e da clareza de papéis na transição. Quando fornecedores e clientes percebem que há um processo estruturado e transparente, a confiança se mantém – e a empresa consegue atravessar fases de mudança sem perder mercado.
Varejo e oficinas na rota da profissionalização
A discussão sobre governança seguiu no Painel Varejo e Reparação, mediado por Antonio Fiola, presidente do Sindirepa-SP. O debate abordou os desafios de manter credibilidade e longevidade em negócios que, na maior parte dos casos, continuam muito dependentes da figura do proprietário para a gestão e o relacionamento com clientes.
Ao mesmo tempo, o painel marcou um ponto simbólico: foi a edição em que o Seminário passou a dar protagonismo explícito à participação feminina no varejo e na reparação, tema que seria detalhado no painel final da AMMA.
Priscila Rodrigues, gestora da Autopeças Rodrigues e filha do fundador, contou como deixou uma carreira em grandes corporações para assumir, há nove anos, a empresa da família. Com formação em Comércio Exterior, ela implantou processos de gestão com foco em resultados, criou rotinas de acompanhamento estatístico, revisou boas práticas para profissionalizar a empresa e realizar a gestão de pessoas com olhar humanizado, além de ter investido em treinamento. Também idealizou, junto com o irmão na administração, o movimento da Tríade do Mecânico, voltado à capacitação e valorização da categoria, com eventos presenciais, ações nas redes sociais e podcasts que contam histórias de sucesso de profissionais da reparação.
Luiz Franga, diretor do Sindirepa-SP e proprietário da The Specialist 4×4 Service, trouxe a visão de quem viveu a realidade das montadoras e das concessionárias antes de abrir seu próprio negócio. O executivo participa do Comitê de Estudos do Senai-SP e se dedica a apresentar aos jovens formandos as oportunidades na reparação, em um contexto de escassez de mão de obra qualificada. Para ele, mesmo em empresas pequenas, boas práticas de governança fazem diferença: estabelecem padrões de qualidade e servem de exemplo para o restante do setor.
Representando o varejo, Neno de Oliveira, CEO da Go!Mec Autopeças, contou como precisou aprender a lidar com o cliente ao sair da indústria para abrir a própria loja. O caminho da governança começou pelo RH, com a definição clara de valores e cultura, e avançou para processos que hoje dão suporte a uma rede de cerca de 600 oficinas atendidas na região do ABC Paulista. Neno destacou o apoio do Sebrae em um projeto-piloto de gestão com base de clientes, mostrando como a profissionalização pode se traduzir em ganho de eficiência e fidelização.
Já Ricardo Cramer, proprietário da Aires & Filhos e diretor do Sindirepa-SP, relatou o desafio de gerir com a mãe e o irmão uma oficina com mais de 50 anos. Após o falecimento do pai fundador, há 20 anos, precisou começar do zero a parte de gestão. Para isso, estudou e começou a escrever um plano de ação para manter o padrão.
Hoje, com uma equipe menor, atende menos veículos, mas com tíquete médio muito mais elevado, resultado direto de um posicionamento baseado em governança e valorização do serviço. Cramer ainda busca um modelo para garantir a continuidade da empresa após sua geração e estuda alternativas de associativismo que permitam tornar colaboradores de destaque sócios do negócio.
Transição energética com identidade brasileira
Em sua palestra, José Arnaldo Laguna, presidente do Conarem, falou sobre a transição energética da mobilidade no Brasil e seus impactos no pós-venda. O executivo apresentou o trabalho do Instituto MBCB, coalizão que reúne atores da cadeia automotiva com o objetivo de reduzir emissões de gases de efeito estufa de forma sustentável, viável e compatível com a realidade nacional.
Em 2023, as emissões brasileiras chegaram a 2.296 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, com o transporte rodoviário respondendo por 91% desse total. A meta estabelecida é reduzir as emissões em 53% até 2030 e alcançar a neutralidade em 2050. Nesse cenário, a frota circulante ganha papel estratégico: em 2024, eram 48 milhões de veículos, sendo que os com mais de 11 anos representavam 55% do total – justamente aqueles que mais emitem.
Laguna defendeu a implantação de um Programa Nacional de Renovação de Frota e o aumento da participação do etanol nos veículos flex como passos fundamentais para avançar na descarbonização.
Para os próximos anos, a transição energética não se dará por uma única rota tecnológica. Laguna projeta uma multiplicidade de soluções coexistindo nos novos licenciamentos: etanol, biodiesel, HVO, hidrogênio, biometano, bioelétrico e os veículos elétricos a bateria (BEV). Ele foi enfático ao lembrar que “no Brasil, os elétricos [ainda] não são uma realidade”, e que, em 2040, cerca de 68% da frota ainda deverá ser composta por veículos com motor de combustão interna.
Essas projeções têm implicações diretas para o aftermarket. A necessidade de ampliar drasticamente a infraestrutura de recarga – dos atuais cerca de 15 mil pontos para algo entre 500 a 700 mil até 2040 – e o crescimento da demanda por energia e biocombustíveis vão exigir investimentos robustos em geração, distribuição e logística.
Para a reposição, significa conviver, por muitos anos, com uma frota tecnicamente mais complexa, com diferentes combustíveis, soluções híbridas e padrões de componentes, exigindo capacitação contínua de oficinas, distribuidores e varejistas.
Mulheres que movem a reposição
Outro marco da 31ª edição do Seminário foi a estreia do Painel “Mulheres que Movem a Reposição”, organizado pela AMMA – Associação Brasileira das Mulheres do Mercado Automotivo. Mediado por Carla Nórcia, presidente da entidade, CEO da Insight Trade e Aceleradora da plataforma Vagas Automotivas, o debate apresentou dados inéditos sobre a participação feminina no setor e trouxe histórias de profissionais que transformaram a cultura de suas empresas.
Tania Macriani, fundadora da MHD Consultoria e especialista em mapeamento do mercado automotivo, lembrou que as mulheres representam 50% da população brasileira e que 55% delas são economicamente ativas. Estudos apontam que a igualdade de gênero pode adicionar trilhões de dólares à economia global, e o setor automotivo não está fora dessa conta.
Pesquisas recentes indicam que as mulheres já respondem por cerca de 25% dos profissionais e por 16% da mão de obra do segmento, mas ainda têm presença tímida em cargos de alta gestão. Por outro lado, 65% das montadoras e empresas de autopeças já investem em programas de equidade de gênero.
A executiva destacou ainda a força de consumo das mulheres na cadeia automotiva: mais da metade das compras de veículos novos e seminovos são feitas em CPFs femininos, e elas respondem por parcela significativa das vendas diretas e influenciam boa parte das decisões de compra nas famílias. Para o aftermarket, isso significa que incluir mulheres em posições estratégicas não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma decisão de negócios.
Na sequência, Sabrina Carbone, gerente global da Frasle Mobility, mostrou como, nas últimas duas décadas, a presença feminina cresceu em oficinas (como mecânicas e gestoras) e no varejo, em vários países da América Latina. As mulheres, ressaltou, têm investido em formação técnica e acadêmica.
Simone de Azevedo, CEO da Mobensani Borrachas Automotivas, relatou a experiência de uma empresa em que a liderança feminina é orgânica: ao lado da irmã Suzane, ela viu o número de colaboradoras crescer 75% em poucos anos, chegando a representar um terço do quadro total. Esse movimento foi sustentado por uma gestão baseada em escuta ativa, atenção aos detalhes e construção de um forte sentimento de pertencimento, fatores que se traduziram em alta produtividade e engajamento.
Já Camila Bezerra, repórter do programa AutoEsporte da Rede Globo e proprietária da oficina Chassis Force, contou como construiu, ao longo de 20 anos, uma trajetória de credibilidade na reparação. Ela buscou formação técnica, dominou equipamentos de diferentes fabricantes e utilizou o bom humor para enfrentar situações complexas, até conquistar a confiança de clientes que hoje já chegam à segunda geração.
Ao final do painel, Nórcia convidou ao palco Marilda Costa Salles Ávila, diretora do Grupo Photon e editora da Revista Mercado Automotivo, para uma homenagem das participantes. O gesto simbolizou o reconhecimento de quem, há décadas, abre espaço para que a reposição se veja, se discuta e se reinvente, inclusive em relação à diversidade.
Em um cenário de frota em crescimento e envelhecimento, novas tecnologias surgindo e mudanças profundas no comportamento dos consumidores, o recado que ficou da 31ª edição é direto: os players que souberem transformar ESG, governança e inclusão em prática cotidiana estarão mais bem posicionados para aproveitar as oportunidades da próxima década.
E o Seminário da Reposição Automotiva seguirá sendo o espaço privilegiado para acompanhar essa transformação, ano após ano.



Escrito por: Redação