PIB do Brasil cresce apenas 0,5% no 2º trimestre, em linha com movimento global
O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou os dados relativos ao PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil no segundo trimestre de 2026 e reforçou uma percepção que vem acompanhando os brasileiros, independentemente de seu viés ideológico: a economia do país vem evoluindo, porém de forma bem lenta, em linha com o que ocorre nas demais economias mundiais.
No segundo trimestre de 2026, o PIB do Brasil cresceu 0,5% na comparação com os primeiros três meses do ano. Se comparado com o segundo trimestre de 2025, houve alta de 2%. Já o acumulado de quatro trimestres apresentou expansão de 1,9%.
É pouco, se pensarmos especificamente na expectativa de crescimento que segue o Brasil recentemente. Mas, ao mesmo tempo, representa um crescimento próximo à média mundial, numa sinalização de que a própria economia global caminha a passos lentos, impactada pelas diversas guerras e flutuação nos preços de energia e commodities, principalmente.
Segundo ranqueamento da agência classificadora de risco de crédito Austin Rating, com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o crescimento de 0,5% coloca o Brasil como dono da quinta maior alta do PIB nessa comparação entre trimestres imediatamente seguidos, à frente de países como Estados Unidos e China. O ranking levou em consideração 50 países que já divulgaram o resultado do PIB do segundo trimestre.
Detalhamento do PIB brasileiro
De acordo com o IBGE, o PIB do Brasil chegou a R$ 3,4 trilhões no segundo trimestre. Se considerado o primeiro semestre completo, a economia expandiu 1,9% na comparação com a primeira metade de 2025. Segundo o boletim Focus, sondagem do Banco Central com instituições do mercado financeiro, o ano de 2026 deve terminar com crescimento do PIB de 1,92%.
O IBGE explica que o PIB pode ser calculado pela ótica da produção (análise do desempenho das atividades econômicas) ou do consumo (gastos e investimentos).
Pela ótica da produção, a agropecuária foi destaque, com variação positiva de 2,8% na passagem do primeiro para o segundo trimestre. Em 12 meses, a alta chega a 6,2%. A indústria variou positivamente 0,1% do primeiro para o segundo trimestre e 1,4% em 12 meses.
Dentro da indústria, o principal motor foi a indústria extrativa, que saltou 3,4% entre os trimestres seguidos. Já o setor de serviços, que mais emprega na economia, cresceu 0,2% entre os trimestres seguidos e 1,7% no acumulado de 12 meses.
Detalhando os dados do setor, os segmentos de serviços que mais cresceram foram informação e comunicação (2,1%), transporte, armazenagem e correio (1,1%) e atividades imobiliárias (0,2%). O comércio ficou estável, ou seja, variação nula (0%).
Houve variação negativa no segmento administração, defesa, saúde e educação públicas e seguridade social (-0,4%) e em atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados (-0,3%).
A Formação Bruta de Capital Fixo, indicador que representa os investimentos, cresceu 1,2% no trimestre.
Já pela ótica da demanda, o consumo do governo subiu 0,4%, enquanto o das famílias recuou (-0,4%).
No setor externo, as exportações caíram (-0,8%), e as importações subiram 1,8% em relação ao primeiro trimestre de 2026.
5º maior crescimento no mundo
Ao figurar como a quinta maior alta entre os 50 países monitorados pela agência Austin Rating, o Brasil ficou atrás apenas de Irlanda (1%), Indonésia (0,9%), Angola (0,7%) e Malásia (0,6%).
Além de figurar na quinta posição, o Brasil apresenta desempenho superior à média dos países (0,2%), dos países da Zona do Euro (0,1%) e do G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido).
De acordo com boletim do Ministério da Fazenda, a variação positiva do PIB no segundo trimestre veio pontualmente acima das expectativas de mercado, que acreditava em alta de 0,4%. A título de comparação, os Estados Unidos cresceram 0,4%, enquanto a China avançou 0,2%.
A Austin Rating compara também os países por tamanho do PIB. O Brasil era a 11ª maior economia em 2025. Em 2026, subiu para a décima posição. A projeção é que ultrapasse a Rússia e alcance o nono lugar em 2027.
Veja o tamanho das 10 maiores economias do mundo:
1º Estados Unidos: US$ 32,38 tri
2º China: US$ 20,85 tri
3º Alemanha: US$ 5,45 tri
4º Japão: US$ 4,38 tri
5º Reino Unido: US$ 4,26 tri
6º Índia: US$ 4,15 tri
7º França: US$ 3,60 tri
8º Itália: US$ 2,74 tri
9º Rússia: US$ 2,66 tri
10º Brasil: US$ 2,64 tri
A melhor posição já alcançada pelo Brasil foi como a sétima maior economia, de 2011 a 2014.
Tamanho e força de entregadores por aplicativo
Outro dado divulgado pelo IBGE e que ajuda a dimensionar o avanço lento da economia brasileira diz respeito à quantidade de entregadores por aplicativos do país. Isso porque a ocupação está muito atrelada a uma geração de renda deficitária, com longas jornadas de trabalho, ganhos reduzidos e ausência de formalização – o que pode gerar um passivo ao próprio país em um futuro próximo em relação à seguridade social, por exemplo.
O IBGE revelou que cerca de 2 milhões de pessoas trabalharam por meio de aplicativos (apps) no país em 2025. A imensa maioria deles por conta própria, com jornadas semanais mais longas que os demais ocupados no setor privado e ganhando menos por hora trabalhada.
O instituto buscou informações de pessoas com 14 anos ou mais que utilizam os aplicativos para realizar serviços de transporte e entregas, e classificou esses trabalhadores como “plataformizados”. A pesquisa revela que o contingente de 1,959 milhão de trabalhadores por apps representavam 1,9% do total de ocupados no país.
Cerca de 1,2 milhão de trabalhadores plataformizados utilizam apps de transporte de passageiros. Isso representa praticamente seis em cada dez plataformizados (58,9%). Desses, 1,1 milhão utilizam as plataformas como Uber e 99, enquanto 232 mil utilizam apps de táxi exclusivamente.
Um em cada cinco (19,2%) dos plataformizados tinha ocupação como entregadores de apps de comida, produtos etc. Eram 376 mil pessoas que faziam entregas para plataformas como Rappi, iFood, Zé Delivery, entre outras.
O IBGE mapeou ainda a categoria apps de prestação de serviços gerais ou profissionais, que inclui profissões como designers, tradutores e até telemedicina, quando o médico usa a plataforma digital para captar pacientes e realizar consultas, por exemplo. Em 2025 eram 313 mil pessoas nessa categoria (16% dos plataformizados).
A pesquisa do IBGE revela que a atividade econômica classificada como transporte, armazenagem e correios é a que atrai maior participação de plataformizados, 75%. Ou seja, de cada quatro trabalhadores de app, três atuam para essas plataformas.
Aumento ao longo dos anos
O IBGE detalhou que a pesquisa sobre trabalho por plataforma ainda é experimental, isto é, em fase de teste e sob avaliação. O levantamento já foi realizado em 2022 e 2024.
Diferentemente de 2025, as edições anteriores buscaram informação apenas dos trabalhadores que tinham os apps como ocupação principal, ou seja, a pesquisa deixou de fora aquelas que usavam os aplicativos como renda complementar. Por isso, o número de 2 milhões de plataformizados em 2025 não pode ser comparado com anos anteriores.
Ao se levar em consideração apenas os trabalhadores que tinham nos apps a ocupação principal, o número de 2025 chega a 1,8 milhão. Esse dado pode ser comparado com as Pnad anteriores.
Trabalhadores que tinham os apps como ocupação principal:
2022: 1,3 milhão
2024: 1,7 milhão
2025: 1,8 milhão
Dessa forma, o número representa um crescimento de 9,1% em um ano e 36,8% em três anos. Comparando apenas 2024 e 2025, o número de entregadores de app cresceu 18,6%. Foi a única ocupação que teve variação na casa de dois dígitos.
Motivação
Em 2025, de cada 100 pessoas que tinham nos apps a ocupação principal, 84,4 eram do sexo masculino. Em relação à idade, 47% tinham de 25 a 39 anos. Ao realizar as entrevistas, o IBGE procurou saber o motivo principal que levou as pessoas a trabalharem por meio das plataformas.
Especificamente entre os que atuam com apps de transporte (exceto táxi) e entregadores, o motivo principal foi não conseguir encontrar outro trabalho. As outras motivações apontadas foram flexibilidade e rendimento maior do que em outros trabalhos disponíveis.
Jornadas mais longas e informalidade
Em 2025, o rendimento médio mensal do trabalho principal dos plataformizados foi de R$ 3.147, mesmo patamar dos não plataformizados (R$ 3.148). Esses valores representaram aumento real (já descontada a inflação) de 4,1% para os não plataformizados e estabilidade para os plataformizados, que ganhavam R$ 3.151 em 2024.
O IBGE explica que os valores são exatamente o que é “retirado” pelos plataformizados, ou seja, o saldo após o motorista pagar custos com gasolina para o carro, por exemplo.
Os trabalhadores por aplicativo tinham em 2025 jornada semanal de 44,7 horas, superior à dos não plataformizados (39,3 horas). São 5,4 horas de diferença.
O fato de as duas classes terem rendimentos no mesmo patamar e diferença na jornada faz com que o rendimento-hora médio do trabalhador de app seja menor. Eles recebiam R$ 16,2 por hora, 12% menos que os não plataformizados (R$ 18,4/hora).
A pesquisa também mostra que os trabalhadores por app vivenciavam mais a informalidade e tinham menos cobertura previdenciária. Entre os plataformizados, 72% atuavam na informalidade, enquanto 34% atuavam com cobertura previdenciária. Entre os não plataformizados, 43% atuavam na informalidade e 63% trabalhavam com cobertura previdenciária.
O IBGE considera informais os empregados sem carteira assinada e autônomos sem CNPJ, por exemplo. São pessoas sem a garantia de direitos trabalhistas, como férias e 13º salário. Já ao contribuir para institutos de previdência, o trabalhador adquire garantias, como aposentadoria, benefício por incapacidade e pensão por morte.
Conta própria, mas dependente
Aproximadamente 1,6 mil de pessoas ocupadas por aplicativos se declararam trabalhadores por conta própria. Essa marca representa 86,8% do total de plataformizados. Na economia como um todo, os conta-própria são 28,9% dos ocupados no setor privado.
Apesar de trabalharem por iniciativa própria, o IBGE ressalta que “há evidências de certo grau de dependência da maior parte desses trabalhadores em relação às plataformas”.
Entre os que trabalham com apps de transporte de passageiros (exceto táxis), 80,2% afirmam que o valor a ser recebido por cada tarefa depende totalmente das plataformas digitais.
Entre os entregadores, 78,3% disseram que dependem totalmente. Já 65,9% responderam que o prazo para realização da tarefa depende dos apps, e 71,3% afirmaram que a forma de recebimento do pagamento é decidida pela plataforma.
O analista da pesquisa, Gustavo Geaquinto Fontes, aponta que esses trabalhadores têm uma situação “diferente de um conta-própria tradicional”.
“Apesar de essa pessoa não ter um vínculo formal com a plataforma, ela, na verdade, tem uma dependência em vários aspectos em relação à empresa que controla a plataforma digital”, explica.
*Com informações da Agência Brasil
Escrito por: Redação