Em entrevista à revista Mercado Automotivo, Paulo Gomes, Diretor Executivo Ride & Comfort/ LATAM da Frasle Mobility, fala sobre as vivências e experiências que traz de mercados da Europa e da Ásia para atuar no Brasil e América Latina.
Mercado Automotivo – Você tem vivência internacional em mercados da Europa, Ásia, África e Américas e trabalhou em países como Alemanha e China. A partir dessas experiências, o que mais influenciou sua forma de liderar negócios atualmente?
Paulo Gomes – Minha trajetória de mais de 35 anos na Frasle Mobility, com experiências em diferentes mercados e mais de três anos de atuação na China e cinco anos na Alemanha, tanto no aftermarket quanto junto às montadoras, transformou profundamente minha forma de liderar.
A principal lição foi entender que não existe uma fórmula única para atuar globalmente. Cada mercado tem suas próprias características, necessidades, regulamentações, canais de distribuição e formas de relacionamento. No nosso setor, os produtos precisam ser desenvolvidos e adaptados às demandas específicas de cada região.
Aprendi também que proximidade é um fator decisivo. É necessário estar próximo dos clientes, dos parceiros, das montadoras e das equipes locais. O mercado espera agilidade, disponibilidade e capacidade de resposta. Hoje, logística, proximidade aos clientes/mercados, agilidade nos prazos de entrega e presença local são tão importantes quanto qualidade e competitividade.
A internacionalização também nos mostrou a importância de investir continuamente em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Nossos engenheiros precisam trabalhar próximos aos mercados para compreender certificações, requisitos técnicos e tendências de cada região. Liderar negócios globais, portanto, exige visão estratégica, mas também escuta, presença e capacidade de adaptação.
MA – Como você avalia o setor de reposição automotiva no Brasil atualmente? Comparado aos mercados europeus e asiáticos, em quais pilares ainda precisamos evoluir?
PG – O mercado brasileiro de reposição é sólido, relevante e possui fundamentos muito consistentes. Temos uma frota ampla, uma rede de distribuição desenvolvida e uma demanda permanente por manutenção e reparação. É um mercado estratégico para a Frasle Mobility e para toda a cadeia automotiva.
Ao mesmo tempo, ainda temos oportunidades importantes de evolução. A primeira está relacionada à eficiência da cadeia, especialmente em planejamento, integração de informações, disponibilidade de produtos e velocidade de entrega. O cliente quer encontrar o produto no momento em que precisa, e isso exige cada vez mais precisão logística.
Outro ponto é a digitalização. Precisamos avançar na integração entre fabricantes, distribuidores, varejo, oficinas e consumidores, utilizando melhor os dados para antecipar demandas e aperfeiçoar a experiência de compra.
Também é fundamental acelerar a preparação tecnológica do setor. A frota está mudando, os requisitos de segurança e sustentabilidade estão mais rigorosos e os profissionais da reparação precisam acompanhar essa transformação. O Brasil possui capacidade técnica e industrial para evoluir, mas é necessário manter investimentos contínuos em inovação, qualificação e competitividade.
MA – Especificamente sobre a América Latina, a Frasle Mobility enxerga oportunidades de crescimento na região? Em quais países?
PG – A América Latina é uma região estratégica para a Frasle Mobility. O mercado tem características muito favoráveis, como uma frota diversificada, forte utilização dos veículos e uma demanda recorrente por manutenção e reposição.
Além do Brasil, México e Argentina que são mercados prioritários pela dimensão, relevância econômica e potencial de desenvolvimento. Também enxergamos oportunidades importantes na Colômbia, no Paraguai, no Chile e no Peru, considerando o crescimento dos mercados, a necessidade de disponibilidade de peças e a busca por produtos que ofereçam segurança, qualidade e confiabilidade.
Nossa expansão não depende apenas de vender mais produtos. Precisamos construir uma presença cada vez mais próxima dos clientes. A abertura do centro de distribuição em Cartagena, na Colômbia, é um exemplo dessa estratégia: estar mais perto permite reduzir prazos, melhorar o nível de serviço e atender com maior eficiência os mercados locais e regionais.
A América Latina exige uma visão de longo prazo, disciplina comercial e capacidade de adaptação. É uma região com desafios, mas também com oportunidades concretas para empresas que conseguem combinar escala global com execução local.
MA – De volta ao Brasil, agora à frente da divisão Ride & Comfort da Frasle Mobility, como a companhia tem avançado em logística e quais são os próximos passos dessa estratégia?
PG – A experiência internacional mostrou que a proximidade com o mercado deixou de ser apenas uma vantagem competitiva e passou a ser uma exigência do negócio. Durante muito tempo, acreditávamos que seria possível atender diferentes regiões do mundo a partir de uma única base produtiva. No entanto, fatores como distância, prazos logísticos, limitações portuárias, falta de contêineres e interrupções nas cadeias globais demonstraram que esse modelo precisa ser continuamente revisado.
A Frasle Mobility vem avançando na construção de uma estrutura mais próxima dos clientes. Esse movimento inclui a ampliação da operação na Argentina, a instalação de um centro de distribuição em Cartagena, na Colômbia, e o crescimento da estrutura fabril nos Estados Unidos. Na Europa, a experiência também mostrou a importância de contar com uma estrutura local de distribuição para atender o mercado com mais agilidade.
Os próximos passos envolvem tornar a cadeia ainda mais integrada, regionalizada e responsiva. Isso significa combinar produção, estoques, distribuição e planejamento comercial de forma mais eficiente, sempre considerando as características de cada mercado. A logística precisa acompanhar a evolução do aftermarket e contribuir diretamente para o nível de serviço oferecido ao cliente.
MA – Em sua visão, como os fabricantes devem se preparar para atender um mercado com maior diversidade de itens e pedidos cada vez mais fracionados? O que a Frasle Mobility tem feito nesse sentido?
PG – O aftermarket está se tornando mais complexo. A diversidade de veículos, aplicações e tecnologias exige que os fabricantes ofereçam portfólios amplos, enquanto distribuidores e clientes demandam pedidos menores, mais frequentes e entregas cada vez mais rápidas. Esse cenário exige uma operação mais flexível, integrada e orientada por dados.
A experiência internacional da Frasle Mobility mostrou que não é suficiente produzir em um único local e simplesmente exportar para diferentes regiões. Cada mercado possui características próprias, desde o perfil da frota e as condições de uso até certificações, regulamentações e necessidades dos clientes. Por isso, além de ampliar o portfólio, é necessário desenvolver produtos específicos e estruturar uma cadeia de suprimentos próxima dos mercados.
O cliente não trabalha mais com a expectativa de receber um pedido depois de 90 ou 120 dias. Ele precisa de disponibilidade em prazos cada vez menores, muitas vezes dentro da mesma semana. Para o distribuidor, a mercadoria disponível representa capital aplicado e capacidade de atendimento ao mercado.
Com o projeto 4Mobility, estamos preparando a companhia para essa nova realidade. A iniciativa reforça uma visão mais integrada da mobilidade, conectando inovação, desenvolvimento de produtos, eficiência operacional, logística e proximidade com os clientes. Os avanços já alcançados demonstram a evolução de uma empresa essencialmente industrial para uma plataforma global, capaz de responder com mais agilidade às demandas de diferentes regiões.
O 4Mobility também está associado ao avanço da capacidade de inovação da companhia. Atender pedidos fracionados não significa apenas manter mais itens em estoque, significa integrar melhor as áreas da empresa, compreender antecipadamente as necessidades do mercado, regionalizar a operação e combinar escala industrial com flexibilidade. É essa combinação que permitirá à Frasle Mobility crescer com eficiência e manter um nível de serviço compatível com as expectativas atuais dos clientes.
MA – Como a empresa trabalha para garantir consistência global de suas marcas sem perder relevância nos mercados locais?
PG – A consistência global é construída a partir de princípios comuns: qualidade, segurança, inovação, confiabilidade e excelência operacional. Esses elementos precisam estar presentes em todos os mercados em que atuamos.
Ao mesmo tempo, uma marca global só é verdadeiramente relevante quando entende e respeita as particularidades locais. Nossos produtos não podem ser simplesmente replicados de um país para outro sem considerar as condições de uso, as características da frota, as regulamentações e as necessidades dos clientes.
Por isso, trabalhamos com uma combinação de escala global e inteligência local. A experiência internacional nos ensinou que, muitas vezes, é necessário dar um passo atrás, compreender melhor o mercado e desenvolver soluções específicas para aquela realidade.
Essa integração entre engenharia, áreas comerciais, equipes locais, distribuidores, montadoras e clientes permite preservar os padrões globais da marca, sem perder a capacidade de atender de forma precisa cada região.
MA – Como a eletrificação dos veículos, os sistemas de assistência ao motorista e a evolução tecnológica da frota estão transformando o aftermarket na América Latina?
PG – A transformação tecnológica da frota já está impactando o aftermarket, embora em velocidades diferentes entre os países da América Latina.
A eletrificação modifica a arquitetura dos veículos, os componentes sujeitos a desgaste e os conhecimentos necessários para manutenção. A frenagem regenerativa, por exemplo, pode alterar o comportamento de determinados componentes do sistema de freios. Ao mesmo tempo, surgem novas demandas relacionadas a sensores, sistemas eletrônicos, baterias, gestão térmica e diagnóstico.
Os sistemas de assistência ao motorista também ampliam a complexidade dos reparos. Câmeras, radares e sensores exigem procedimentos adequados de substituição, calibração e manutenção. Isso impacta oficinas, distribuidores, fabricantes e toda a cadeia de serviços.
Para a indústria, o momento exige preparação. Precisamos investir em engenharia, inovação, capacitação profissional e informação técnica. A transição será gradual na região, mas a preparação precisa começar agora. O aftermarket do futuro será cada vez mais tecnológico, conectado e orientado por dados, sem deixar de atender a grande frota de veículos convencionais que continuará circulando por muitos anos.
MA – Quais são os principais desafios em liderar equipes formadas por profissionais de diferentes culturas, nacionalidades e estilos de trabalho?
PG – O principal desafio é transformar a diversidade em uma vantagem competitiva. Diferentes culturas apresentam formas distintas de planejar, decidir, negociar, executar e se relacionar. Essas diferenças precisam ser compreendidas, e não eliminadas.
Na Alemanha, por exemplo, encontrei uma cultura muito orientada a processos, planejamento e previsibilidade. Na China, chamou minha atenção a velocidade de execução e a capacidade de adaptação. Na América Latina, destacam-se a flexibilidade, a criatividade e a proximidade nas relações.
Uma liderança multicultural precisa estabelecer objetivos, valores e responsabilidades claros, mas permitir que cada equipe encontre a melhor forma de executar sua estratégia dentro da realidade local.
Comunicação e confiança são fundamentais. É preciso estar presente, ouvir as pessoas e compreender o contexto de cada operação. Não se lidera uma equipe global apenas por meio de reuniões virtuais ou indicadores. É necessário construir relacionamento, respeitar as diferenças e criar um ambiente em que todos entendam como sua contribuição se conecta à estratégia da companhia.
MA – Por fim, gostaria que deixasse uma mensagem para seus colaboradores em relação a este final de ano.
PG – Aproveito para agradecer profundamente a todos os colaboradores da Frasle Mobility. Cada conquista da companhia é resultado do trabalho, do comprometimento e da capacidade de execução de nossas equipes em diferentes países e operações.
Nossa história foi construída com consistência, inovação e coragem para buscar novos caminhos. A internacionalização da empresa mostrou que crescer globalmente exige adaptação, proximidade com os mercados e disposição para aprender continuamente. Mais do que produtos e tecnologias, essa jornada é construída por pessoas.
Neste final de ano, espero que todos possam reconhecer o valor do trabalho realizado, celebrar as conquistas e renovar as energias ao lado de suas famílias e pessoas próximas.
O cenário continuará exigente, mas temos uma empresa sólida, equipes competentes e oportunidades relevantes pela frente. Seguiremos trabalhando com responsabilidade, união e visão de longo prazo para manter a vida em movimento e construir, juntos, os próximos capítulos da Frasle Mobility.
Escrito por: Redação