Exportação de produtos brasileiros atingidos por tarifaço americano recua 22% em agosto
Pouco mais de um mês após a entrada em vigor das tarifas de importação dos Estados Unidos para produtos brasileiros, tanto o governo quanto os setores da economia fazem cálculos para entender o impacto real da medida. Desde o anúncio da primeira tarifa extra, de 10%, em abril, até o fim de agosto, o cenário foi impactado por uma série de questões que envolveram novas investidas (como uma nova tarifa complementar de 40%) e alguns recuos do presidente Donald Trump, assim como ações do governo brasileiro para tentar mitigar os impactos do tarifaço de 50% no total.
Os primeiros números consolidados vieram do Monitor de Comércio Brasil-EUA, boletim elaborado pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), entidade que representa mais de 3,5 mil empresas envolvidas no comércio entre os dois países. O documento revelou que as exportações de produtos afetados pelo tarifaço americano caíram 22,4% em agosto na comparação com o mesmo mês de 2024.
A análise é feita com base nos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). De acordo com a Amcham, os dados de agosto indicam que as sobretaxas impostas pelos EUA provocaram uma queda expressiva nas exportações brasileiras e vêm contribuindo também para a desaceleração das importações.
Em 2024, as exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 40,3 bilhões, equivalente a 12% do total exportado. Desse total, cerca de US$ 16,4 bilhões passaram a ser taxados com tarifas de 50%, de acordo com estimativas do governo. Muitos dos produtos taxados são exportados quase exclusivamente ao mercado norte-americano, sugerindo impactos setoriais relevantes. Ainda de acordo com dados do MDIC, atualmente o tarifaço de 50% incide em cerca de um terço (35,9%) das exportações brasileiras aos EUA.
Impacto também em produtos não taxados
Após o anúncio total de taxação de 50%, o governo de Donald Trump voltou atrás e assinou uma ordem executiva que abriu uma lista de cerca de 700 produtos isentos das novas tarifas.
Entre eles estão suco e polpa de laranja, combustíveis, minérios, fertilizantes e aeronaves civis, incluindo motores, peças e componentes. Também ficaram de fora produtos como polpa de madeira, celulose, metais preciosos, energia e produtos energéticos.
Ainda assim, os dados da Amcham apontaram que até mesmo os produtos sem tarifas adicionais apresentaram queda nas exportações de agosto. O recuo em relação ao mesmo período de 2024 foi de 7,1%, influenciado, de acordo com a entidade, “sobretudo por fatores de mercado, como a menor demanda dos EUA por petróleo e derivados”.
Segundo parceiro comercial
Os Estados Unidos são o segundo principal parceiro comercial do Brasil, perdendo apenas para a China. No acumulado dos primeiros oito meses do ano, o comércio entre os dois países chegou a US$ 56,6 bilhões. As nossas exportações somam US$ 26,6 bilhões e apresentam alta de 1,6% ante janeiro a agosto de 2024.
Mas o resultado isolado de agosto significou a maior queda mensal de 2025, “indicando que o tarifaço influenciou as decisões empresariais”, frisa a Amcham.
Trump alega que os americanos têm déficit comercial com o Brasil – o que é desmentido por números oficiais de ambos os países. Os dados mostram que os EUA vendem mais do que compram do Brasil. Apenas em agosto, por exemplo, esse déficit comercial brasileiro ficou em US$ 1,2 bilhão, alta de 188% ante mesmo mês do ano passado. Já no consolidado de janeiro a agosto, o déficit soma R$ 3,4 bilhões.
O presidente americano também usou como justificativa para o tarifaço o tratamento dado pelo Brasil ao ex-
-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Importações afetadas
De acordo com a Amcham, o impacto do tarifaço também se manifesta nas importações brasileiras, “especialmente em setores mais integrados com a indústria americana, como carvão mineral, essencial para a produção da siderurgia no Brasil”, ou seja, materiais que as empresas brasileiras compram dos Estados Unidos para revender aos americanos incorporados em outros produtos.
Em agosto, as importações brasileiras subiram 4,6%, mas em ritmo de expansão abaixo dos registrados em 18,1% (julho) e 18,8% (junho), indicando perda de dinamismo nas trocas bilaterais.
“A forte desaceleração no ritmo das importações brasileiras vindas dos EUA sinaliza um efeito indireto das tarifas, reflexo do alto grau de integração e de comércio intrafirma entre as duas maiores economias das Américas”, avalia o presidente da Amcham, Abrão Neto.
Fazenda prevê queda no impacto das tarifas
Por outro lado, o governo brasileiro vem trabalhando para não só reduzir as tarifas de imediato, mas, ao menos diminuir os impactos na economia do país. O Ministério da Fazenda apontou, por exemplo, que as ações de ajuda do governo brasileiro deverão reduzir pela metade o impacto do tarifaço.
Segundo dados do Ministério, as tarifas aos produtos brasileiros devem levar a uma queda de 0,2 ponto percentual (p.p.) do PIB. Com a resposta do governo, o impacto cai para 0,1 p.p.
No cenário avaliado, que abrange 22 setores da economia, sem as medidas do governo federal, a perda de empregos ficaria em aproximadamente 138 mil postos de trabalho. Agora, o governo acredita que as ações de auxílio reduzirão a perda para 65 mil empregos. As estimativas, entretanto, não incorporam choques de confiança, aumento da volatilidade financeira ou deterioração das condições de crédito, o que certamente impacta de forma negativa o cenário.
O Plano Brasil Soberano basicamente oferta linhas de crédito do Fundo Garantidor de Exportação com condições mais favoráveis a exportadores e micro, pequenas e médias empresas. As linhas disponibilizam capital de giro para compensar a queda com exportações aos EUA e estimular a busca por novos mercados, e capital para aquisição de bens de capital e para investimento, exigindo em contrapartida manutenção dos empregos.
“Embora as tarifas tenham impacto setorial relevante, impactam pouco no agregado da economia, e ainda menos quando consideradas as compensações com o Plano Brasil Soberano. Linhas de crédito e a oferta de garantias e diferimentos de tributos, além de compras governamentais, vão auxiliar o investimento em capital e inovação produtiva por parte de produtores e empresas, facilitando a diversificação dos destinos das exportações”, diz o estudo da Fazenda.
Como o setor automotivo é impactado?
Para o setor brasileiro de comércio de peças e acessórios para veículos automotores, o tarifaço deverá causar maior dano às montadoras instaladas nos EUA. Segundo o presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos (Sincopeças Brasil), Ranieri Leitão, o processo de montagem de carros no Brasil deverá sofrer poucas alterações.
“Em nosso entender, o impacto talvez seja maior para as montadoras de veículos instaladas no mercado norte-
-americano e que se valem de fornecedores brasileiros. Dentro do Brasil, não enxergamos qualquer alteração no processo de montagem dos veículos”, disse.
Segundo o executivo, o setor atua basicamente no mercado interno e não deverá sofrer impacto direto do tarifaço. “Mas nossa posição é que qualquer movimento de taxação excessiva é desastroso para os negócios em geral”, ressaltou.
As fabricantes nacionais produzem peças específicas para veículos dos EUA, o que torna inviável redirecioná–las para outro mercado, estratégia adotada por outros setores da indústria. A balança comercial de autopeças com os EUA é deficitária ao Brasil desde 2009. Em 2024, o Brasil exportou para os Estados Unidos US$ 1,4 bilhão e importou US$ 2,3 bilhões em peças.
Emplacamento acumula melhor resultado desde 2014
Enquanto isso, o setor automotivo comemora os resultados das vendas de veículos automotores em agosto. No acumulado do ano, trata-se do melhor resultado desde 2014. Os dados são da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).
Nos primeiros oito meses de 2025, o setor contabiliza 3.229.726 unidades emplacadas – uma alta de 6,6% sobre 2024. Com esse resultado, a Fenabrave mantém a estimativa para o ano, que é de alta de 6,2%.
A previsão do setor é que haja alta de 10% nas vendas de motocicletas em 2025. Por outro lado, há expectativa de queda de 7% nos emplacamentos de caminhões. Carros leves e utilitários têm previsão mantida de 5% de expansão nas vendas, e ônibus têm previsão de aumento de 6%.
Segundo a federação, o volume de vendas não deve aumentar mais, especialmente para caminhões, por conta da manutenção dos níveis altos de juros para o crédito, o que também tem impacto na renovação da frota de carros.
A exceção é o bom momento dos veículos elétricos híbridos, com vendas na casa das 120 mil unidades por ano. Para esses veículos, houve aumento de 85% das vendas em relação a agosto de 2024. No acumulado do ano, foram vendidas 75% mais unidades nessa categoria. Os elétricos também têm crescido, com expectativa de chegar a 45 mil unidades por ano em 2025, 10% a mais do que no ano de 2024.
A queda para os caminhões reflete, para a entidade, a desaceleração do agronegócio. Apesar disso, houve aumento considerável de vendas de tratores e colheitadeiras, principalmente para a região Centro-
-Oeste. Foram vendidos 19% a mais de colheitadeiras e 15% a mais de tratores, quando comparados os anos de 2025 e 2024, até o mês de agosto. As compras estão relacionadas também aos recursos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
“Importante observar que o crescimento do mercado está concentrado na região Centro-Oeste, mais impactada [pela seca] em 2024, mas que, neste ano, acumula crescimento de 71,4%, enquanto a região Sul cresce apenas 5%, e as demais regiões estão em retração”, comentou em entrevista coletiva à imprensa o presidente da Fenabrave, Arcelio Junior.
Previsão para economia
Já em relação à economia brasileira, o mercado financeiro atualizou suas previsões e reduziu a expectativa de crescimento. Agora, de acordo com o Boletim Focus, do Banco Central, a alta deverá ser de 2,16% para 2025. Para os anos subsequentes, a previsão do mercado é que a economia cresça ainda menos: 1,85%, em 2026, e 1,88% em 2027.
O PIB brasileiro cresceu 0,4% no segundo trimestre de 2025, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No trimestre anterior, o resultado havia sido mais positivo: crescimento de 1,3%.
Inflação
Com relação ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA, a inflação oficial do país), o Boletim Focus manteve a previsão de 4,85%. No mês anterior, a expectativa de inflação para o ano estava em 5,05%. Para 2026 e 2027, as estimativas de inflação estão em 4,3% no ano que vem e 3,94% em 2027.
A estimativa para 2025 está acima do teto da meta de inflação que deve ser perseguida pelo BC, de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo.
Em julho, pressionada pela conta de energia mais cara, a inflação oficial fechou em 0,26%, sendo o segundo mês seguido de queda nos preços dos alimentos, o que ajudou a segurar o índice. No acumulado em 12 meses, o IPCA alcançou 5,23%.
Escrito por: Redação