Em livro, especialista mostra como a organização da rotina pode influenciar sono, alimentação, energia e desempenho e propõe mudança simples de perspectiva
De modo geral, os horários dos brasileiros foram bastante alterados durante a pandemia de Covid-19, há seis anos. Hábitos que antes tinham horários bem definidos, como acordar, iniciar o expediente de trabalho e almoçar, passaram a se misturar e conviver com tempos cada vez mais flexíveis. A pandemia se foi há bastante tempo, mas a influência dessas mudanças na rotina permaneceu para muitos brasileiros, gerando impactos negativos em diversas frentes, especialmente na saúde.
Hoje, infelizmente, ainda permanece uma armadilha silenciosa na vida profissional: acreditar que produtividade é uma questão exclusivamente de esforço. Se há muito trabalho, a solução parece ser trabalhar mais. Se falta energia, toma-se mais café. Se o sono não foi suficiente durante a semana, tenta-se compensar no fim de semana. Se a agenda está apertada, refeições, exercícios e momentos de descanso são empurrados (ou esquecidos) para qualquer horário disponível.
É justamente contra essa lógica que o médico ayurvédico Suhas Kshirsagar constrói seu livro “Mude seus horários, mude sua vida” (Editora Sextante, 240 páginas, R$ 65). A ideia central do livro é direta: nosso organismo possui ritmos próprios e, quando a rotina cotidiana entra em conflito com esses ritmos, o corpo precisa trabalhar mais para manter o equilíbrio. Em vez de perguntar apenas “o que devo fazer para ter mais saúde e disposição?”, Kshirsagar propõe outra pergunta: quando devo fazer isso?
Publicado originalmente em 2018 e lançado no Brasil em 2020, o livro é relativamente curto e combina conceitos de cronobiologia com princípios da medicina ayurvédica. Kshirsagar, que tem doutorado pela Universidade de Pune, na Índia, dirige uma clínica de terapias integrativas na Califórnia e é apresentado como um especialista em medicina ayurvédica.
Um relógio dentro de nós
O ponto de partida do livro é o relógio biológico. O organismo não funciona da mesma maneira durante as 24 horas do dia. Sono, temperatura corporal, metabolismo, hormônios, fome, disposição e atenção sofrem influência de ciclos que se relacionam principalmente com a alternância entre luz e escuridão.
É o campo da cronobiologia que estuda esses ritmos. A proposta do livro é levar esse conhecimento para situações corriqueiras: o horário das refeições, o momento de dormir, a prática de exercícios e até a maneira de distribuir atividades ao longo do dia.
Isso ajuda a explicar por que determinadas escolhas aparentemente inofensivas podem cobrar um preço. Pular refeições, trabalhar até tarde, ficar exposto a telas durante a noite ou tentar recuperar no sábado e no domingo todo o sono perdido durante a semana são exemplos de comportamentos que, segundo o autor, podem desorganizar os ciclos naturais do organismo.
“Parece magia, mas não é. Mais e mais pesquisas científicas revelam que nosso corpo está intimamente ligado ao ritmo circadiano de luz e escuridão até o nível celular. Esses estudos mostram que quando comemos é tão importante quanto o que comemos, que quando adormecemos é tão importante quanto o tempo que passamos dormindo e que quando malhamos é tão importante quanto o volume de exercícios que praticamos”, explica o autor no livro, que traz exemplos práticos verificados em estudos para comprovar sua visão.
“O horário de nossas atividades diárias determina nosso peso, vigor, saúde geral e estado de espírito. Não acredita? Há décadas os pesquisadores do diabetes sabem que um modo simples de provocar obesidade em camundongos de laboratório é acordá-los e alimentá-los durante o ciclo do sono. Além disso, os camundongos engordam depois de uma semana se os pesquisadores simplesmente os expuserem à luz fraca quando deveriam estar dormindo. Ainda não acredita? Pense na última vez que viajou para longe e experimentou um jet lag. Como se sentiu? Quem já passou por um jet lag sabe que os sintomas podem ir muito além da alteração do sono. É comum ter prisão de ventre, dor de barriga, confusão cognitiva, pouca energia e aumento de sensibilidade ao estresse. Um estudo recente chegou a ligar o jet lag ao ganho de peso, porque a desorganização dos horários causada pelas viagens de longa distância confunde os micróbios do intestino”, explica o autor.
A mensagem é interessante porque desloca o debate da disciplina para a sincronia. Não se trata simplesmente de exigir mais de si mesmo, mas de entender em que condições o corpo tende a responder melhor.
Horário também é hábito
Um dos méritos do livro está em transformar uma discussão que poderia parecer abstrata em decisões práticas. Kshirsagar fala de alimentação, sono e atividade física não apenas como comportamentos isolados, mas como elementos de uma programação diária.
“Isso é fascinante, porque nos achamos muito isolados da natureza. Vivemos em casas com temperatura controlada e trabalhamos em salas fechadas ou em cubículos dentro de espaços maiores fechados. Mesmo assim, todos os sistemas do corpo mudam num padrão diário previsível. Seu corpo está sempre tentando coordenar todos os seus sistemas segundo um relógio central, usando a luz natural disponível. Na natureza, todos os organismos operam dessa forma cíclica”, completa.
O livro traz, por exemplo, sugestões como almoçar por volta do meio-dia, desligar aparelhos eletrônicos às 20 horas e realizar exercícios pela manhã, antes do café. O objetivo não é apresentar uma fórmula universal, mas estimular o leitor a reorganizar a rotina de acordo com seus padrões e necessidades. A obra também traz testes para ajudar na identificação de características corporais e comportamentais, além de orientações sobre nutrição, sono, trabalho, repouso e exercício.
Essa abordagem é particularmente relevante em uma época na qual a fronteira entre expediente e vida pessoal ficou mais difícil de estabelecer. O profissional pode estar fisicamente fora da empresa, mas continuar respondendo mensagens, resolvendo problemas ou planejando o dia seguinte. O resultado é uma rotina em que o trabalho ocupa espaços originalmente destinados à recuperação.
O setor automotivo está longe de ser o único a enfrentar esses desafios cotidianos na indústria e no setor de serviços. Mas, a reposição especificamente precisa lidar com muitos públicos, geralmente ao mesmo tempo, o que acaba gerando uma carga extra de ansiedade e estresse a quem trabalha nesse cenário. Balcões de autopeças, oficinas, distribuidores, centros de logística e equipes comerciais dependem de agilidade, atenção e capacidade de resolver problemas.
A peça adequada precisa ser identificada rapidamente, o prazo precisa ser cumprido, o cliente precisa receber uma resposta prontamente e o pedido precisa sair no horário. Em ambientes assim, cansaço não significa apenas desconforto: pode significar perda de concentração e aumento da possibilidade de erro.
Produtividade não é estar disponível sempre
O livro também provoca uma reflexão importante para quem associa desempenho a longas jornadas. Existe diferença entre estar ocupado e ser produtivo. Uma pessoa cansada pode passar mais horas diante de uma tarefa e, ainda assim, produzir menos, tomar decisões piores ou precisar refazer aquilo que executou.
Por isso, organizar horários pode ser entendido como uma ferramenta de gestão pessoal. A agenda deixa de ser apenas uma lista de compromissos e passa a considerar o funcionamento do próprio indivíduo.
Essa mudança de perspectiva é valiosa para líderes. Em vez de enxergar pausas, sono e alimentação adequada como obstáculos à produtividade, é possível tratá-los como componentes da capacidade de trabalho. Afinal, uma equipe que começa o dia descansada e consegue manter uma rotina minimamente previsível tende a ter melhores condições para sustentar atenção e desempenho ao longo do expediente.
O livro, portanto, não é exatamente um manual tradicional de produtividade. Ele não promete ensinar a fazer mais coisas em menos tempo. Sua proposta é anterior a isso: criar condições para que corpo e mente funcionem melhor. Talvez uma das maiores contribuições do livro seja mostrar que mudanças relevantes não precisam começar com grandes decisões.
A aplicação prática pode ser bastante simples. Observar a que horas costuma surgir mais disposição. Evitar transformar a madrugada em extensão do expediente. Criar uma rotina de sono mais consistente. Prestar atenção ao horário das refeições. Encontrar um período adequado para movimentar o corpo. Reduzir a exposição a estímulos eletrônicos antes de dormir.
Outro aspecto interessante da obra é sua crítica à ideia de compensação. Dormir pouco durante vários dias e tentar dormir muito no fim de semana, por exemplo, pode parecer uma solução prática para uma agenda cheia. O problema é que o organismo não funciona como uma conta bancária na qual todo déficit pode ser simplesmente quitado de uma vez.
O mesmo raciocínio vale para alimentação, descanso e exercício. Quando o cuidado pessoal é sempre adiado para “quando houver tempo”, ele tende a perder espaço permanentemente. O livro propõe inverter essa lógica: os horários dedicados ao corpo devem fazer parte da programação, e não depender das sobras da agenda.
Para profissionais acostumados a pensar em prazo, giro de estoque, produtividade e eficiência, a provocação do livro é quase uma mudança de paradigma: talvez o próximo ganho de eficiência não esteja em fazer mais, mas em fazer cada coisa no momento mais adequado.
Vale a leitura!
Escrito por: Redação