Em livro, especialistas defendem mentalidade que pretende transformar empresas tradicionais em usinas de inovação
Chega às livrarias brasileiras uma obra que tem o objetivo de mostrar como se adaptar às incertezas do nosso tempo, tomar melhores decisões e transformar empresas tradicionais em usinas de inovação. Em Mentalidade de Risco (Editora Sextante, 304 páginas, R$ 70), os autores Ilya Strebulaev e Alex Dang defendem que a mentalidade dos investidores de capital de risco (venture capital) pode ser útil no ambiente de empresas tradicionais.
Para eles, é essa mentalidade que poderá auxiliar as lideranças a identificar tendências, decidir o momento certo de apostar ou recuar e erguer do zero negócios bem-sucedidos.
Strebulaev é fundador da Venture Capital Initiative e professor de private equity e finanças na Stanford Business School. É considerado o maior especialista acadêmico no assunto, com estudos publicados em periódicos especializados e veículos como The Wall Street Journal, The New York Times e Harvard Business Review.
Já Dang é executivo sênior de tecnologia e consultor em inovação e estratégia digital. Atuou como sócio da McKinsey e da Ernst & Young e capitaneou o lançamento de novos negócios e produtos na Amazon nas áreas de e-commerce, cadeia de suprimentos e inteligência artificial.
No livro, os autores unem teoria, estudos empíricos e casos práticos para explicar nove princípios que caracterizam essa mentalidade do capital de risco. São histórias de empresas conhecidas, comparações entre o modelo tradicional de gestão e o estilo de tomada de decisão de venture capital, além de sugestões práticas para líderes implementarem mudanças culturais e estruturais. Entre os temas centrais do livro estão:
A importância de encorajar a discordância, de maneira a evitar o consenso prematuro;
Saber quando “puxar o plugue”, ou seja, abandonar iniciativas que já não prometem retorno;
Cultivar visão de longo prazo, apesar das pressões corporativas por resultados imediatos;
Falhar bem, como algo inevitável ou até necessário dentro de um ambiente de inovação.
Relevância para o contexto de incerteza
Entre os pontos fortes do livro de Strebulaev e Dang está o fato de abordar uma proposta de mindset de risco justamente num momento em que o ambiente de negócios mostra muitas empresas pressionadas por inovações fora de seu controle. A mentalidade citada pelos autores propõe ajudar a pensar não em “evitar o risco”, mas em gerenciá-lo, apostando com mais clareza e decidindo quando persistir ou recuar.
Os nove princípios explicados pelos autores são expostos a partir de casos, exemplos e, em muitos momentos, dicas de como os líderes podem ajustar mentalidades e processos (não exigindo necessariamente grandes mudanças estruturais desde o início). Isso facilita a aplicação dos princípios, sem que pareça algo idealizado demais.
Em seu texto, os autores combinam pesquisa e experiência executiva. Strebulaev traz respaldo acadêmico, com décadas de estudo de venture capital, decisões de investimento, métricas de retorno e padrões observados. E Dang complementa com vivência prática, tornando a teoria mais conectada ao “mundo real”.
Além disso, o livro adota um tom acessível, ainda que envolva conceitos técnicos de investimento. Ou seja, sua leitura não requer formação em finanças ou matemática, ainda que quem domina essas áreas certamente obterá maior proveito.
Pontos de atenção
Existem, entretanto, alguns pontos do livro que merecem atenção. Há uma idealização do modelo de venture capital, com uma narrativa que assume que os princípios podem ser simplesmente “copiados” em empresas que operam em ambientes muito distintos. Ou seja, companhias com estruturas regulatórias mais rígidas, cultura interna mais burocrática e menos tolerância a risco por parte dos stakeholders. Nem sempre a adoção desse modelo será viável ou desejável em todos os setores ou mercados.
Além disso, apesar de destacar empresas bem-sucedidas com essa mentalidade, o livro registra espaço muito menor para analisar fracassos de iniciativas inovadoras mesmo sob o modelo de venture capital.
Algumas vezes, o custo dessas apostas em determinados setores é alto, seja no âmbito financeiro, reputacional ou humano. O livro até alerta para isso, mas em muitos momentos seu argumento pode soar otimista demais.
No Brasil, muitas empresas enfrentam riscos regulatórios, instabilidade política, incertezas fiscais, câmbio, infraestrutura, burocracia. Tudo isso torna o apetite ao risco algo mais complexo: erros podem resultar em penalidades e perdas que vão além do financeiro.
Ainda assim, o livro pode servir como um estímulo importante para empresários brasileiros romperem ciclos de segurança excessiva e resistência à inovação. Por exemplo, líderes que estão acostumados com orçamentos fixos, prazo rígido e hierarquia estrita podem tirar proveito ao incorporar princípios como “quando cancelar projetos” ou “valer a pena discordar de consenso”.
Nesses casos, as adaptações serão necessárias. Decisões de risco precisarão levar em conta a instabilidade macroeconômica, a dependência de estímulos governamentais, as dificuldades de acesso a capital de risco local, a escassez de talentos em áreas específicas e a volatilidade de mercado.
O livro de Strebulaev e Dang é bem recomendado especialmente para executivos de média e alta gestão em empresas tradicionais que precisam impulsionar inovação ou sobrevivência em ambientes de disrupção. E também para gestores de inovação, transformações digitais e novos negócios, todos encarregados de inovar na empresa.
Vale a leitura!
Escrito por: Redação