Em meio à pressão por renovação de frota e redução de emissões no transporte urbano, o governo federal lançou o Move Brasil, um programa que tenta destravar o acesso de taxistas e motoristas de aplicativo a veículos novos e, ao mesmo tempo, direcionar essa troca para tecnologias consideradas mais limpas.
Operado pelo BNDES, o programa cria uma linha de crédito com condições facilitadas, mas com um recorte claro: só entram veículos zero-quilômetro de até R$ 150 mil, incluindo modelos híbridos movidos a etanol. A escolha sinaliza a tentativa de combinar eletrificação com a vocação brasileira para biocombustíveis, dentro da estratégia industrial liderada pelo MDIC.
Na prática, o acesso ao financiamento passa longe de ser automático. Após o cadastro no portal e uma triagem inicial, com resposta em até cinco dias úteis, o motorista ainda precisa enfrentar a etapa decisiva: a análise de crédito nos bancos, que começa a partir de 19 de junho de 2026. É ali que o programa encontra seu principal filtro, já que a aprovação final segue critérios tradicionais de risco.
O desenho esbarra também no perfil atual da categoria. Um levantamento do GigU mostra que 74,6% dos trabalhadores de aplicativos já operam com carro próprio (financiado ou quitado), enquanto 25,4% dependem de veículos alugados, seja por meio de locadoras ou acordos particulares. Isso indica que uma parcela relevante já carrega compromissos financeiros, o que tende a restringir a tomada de um novo crédito.
Ao mesmo tempo, o tipo de veículo em circulação ajuda a entender o desafio da transição proposta pelo programa. Dados da Machine mostram que, entre os modelos a combustão mais usados, predominam hatchbacks compactos como Volkswagen Polo, Chevrolet Onix, Hyundai HB20, Fiat Argo e Renault Kwid, escolha guiada por consumo, custo de manutenção e adequação ao uso urbano. No segmento eletrificado, há forte concentração: o BYD Dolphin Mini lidera com folga, seguido pelo Dolphin, e, no total, híbridos e elétricos já respondem por 41,4% das corridas analisadas.
“O novo programa pode incidir diretamente sobre uma frota já parcialmente alinhada às suas regras. Na prática, os modelos mais utilizados hoje pelos motoristas urbanos são justamente aqueles que mais se aproximam do perfil esperado para o financiamento, o que pode acelerar a renovação dos veículos e reforçar a presença de opções eletrificadas no setor”, diz Júlia Camossa, estatística responsável pela plataforma.
Esse retrato sugere que a adoção de tecnologias mais limpas já começou, mas ainda responde a uma lógica estritamente econômica. As condições incluem prazos de até 72 meses e juros reduzidos, mas o alcance do Move Brasil depende de quem consegue, de fato, atravessar a barreira do crédito e de quanto esses modelos fazem sentido na conta final do motorista.
Para participar, motoristas de aplicativo precisam comprovar ao menos 12 meses de atividade e 100 corridas em uma mesma plataforma, enquanto taxistas devem ter licença ativa e situação regular. No fim, o programa tenta induzir uma mudança de frota, mas esbarra no ponto mais sensível do setor: custo.
Fonte: Jangada Consultoria de Comunicação